2019.09.20—2019.11.02
Dzi Bead
João Marçal

Inauguração: 19 de Setembro, 22 horas


Isto não é uma folha de sala. Queria apenas partilhar umas ideias sobre o trabalho do João e acho que este pode ser o formato. Provavelmente não é. Também não tenho a certeza que o João se identifique totalmente com as minhas ideias sobre o trabalho dele, mas ele é um artista e é assim que funciona, faz parte do jogo. Quando jogo este jogo com o trabalho dele nunca sei até que ponto as regras estão a ser manipuladas ou não, é sempre como encontrar um baralho de cartas no meio da rua e ser convidado a jogar ou encontrar uma pessoa que se conhece da televisão na rua. Não é de enganos que estou a falar mas de deslocações, de ver algo familiar fora do sítio ou algo que penso conhecer com os códigos mudados.


O João tem um apetite visual voraz, hungry like a wolf, diria mesmo que tem uma vocação para a apropriação, mas acho (aliás, tenho a certeza) que não estamos a falar de apropriação como se fala em Arte, não estamos a falar de Dadaísmo, nem de Pop Art (talvez um bocadinho), acho que é algo diferente, não oposto, mas ao lado, paralelo, que tem muito mais a ver com a vida e com a realidade do que com qualquer exercício conceptual. Podia falar, em vez de apropriação, de re-significação, de uma re-significação pessoal, diria até emotiva das coisas que existem à sua volta. Não estou a falar de um preencher com significado novo um vazio, nem de um processo de negociação entre coisas e o seu significado convencionado, mas de um vai-e-vem, alguma coisa entre o roubo revolucionário e um póster que sai numa revista e é pendurado no quarto. Street fighter.


As coisas que são apropriadas (ou re-significadas) estão longe de ser vazias, são muitas vezes  agressivamente ou sorrateiramente ideológicas, coisas que foram feitas para ter um significado específico, não negociável. Acho que aqui está um ponto a que queria chegar: uma re-significação, sobretudo emocional, destes emissores é uma forma de lidar com esses monstros, só este tipo de sensibilidade corrói esta unilateralidade da produção corporativa de símbolos. Acho importante esta recusa da universalidade. O João precisa de roubar estas coisas porque fazem parte da vida dele e, a partir de agora, são dele, são os seus amuletos e significam o que ele bem entender, ou, retirando esse lado tão consciente, passaram a significar outra coisa só pelo simples facto de serem dele e estarem na vida dele. What do YOU represent??!!


Padrões desenhados anonimamente em qualquer departamento de uma fabrica têxtil para serem usados em lençóis e bancos de autocarro passam a ser panos de fundo para micro-eventos, viagens ou noites mal dormidas, tal como a monotonia geométrica de azulejos monocromáticos ou as otimistas capas de VHS graváveis. As cores que foram estudadas para identificar uma marca de cassetes passam a identificar a experiência do filme que foi gravado e não a imagem corporativa da marca. Cores e formas passam a ser apenas condutores como fios eléctricos, em que a corrente passa nos dois sentidos, ou mesmo vasos não comunicantes, como se tivessem sido isolados por grossas camadas de borracha. Referências à Arte entram no trabalho, às vezes de uma forma absolutamente honesta por uma admiração real, noutras de forma absolutamente absurda pela quantidade de vezes que foram filtradas e destiladas pela realidade, como se desse para fazer uma historiografia visual invertida entre o padrão do autocarro e as primeiras pinturas modernas. De qualquer forma, dependendo de onde se olha, a distância entre uma pintura do Frank Stella e um autocolante pode ser ténue.


Há um trabalho na exposição que para mim tem uma capacidade metafórica enorme, e que pode ser exemplificativa de uma visão sobre o trabalho do João. Um varão de metal pintado de amarelo ocupa verticalmente o espaço da galeria, do chão ao tecto, uma torção percorre a linha que deveria ser direita, esta forma é obviamente um dos varões em que as pessoas se seguram no metro para não caírem, em tudo esta escultura está mascarada de varão. E a torção (assim como as bifurcações que começam a aparecer nos varões) deve muito provavelmente ter sido desenhada por uma equipa que procurava resolver um problema, um varão de dois metros na realidade só serve para duas ou três pessoas se segurarem, esta torção, esta deformação estrutural aumenta a zona de contacto entre o objecto e as pessoas e eu acho que isto é um ponto importante. Desvios, torções, repetições, padrões, e todos os métodos de trabalho do João servem para, como o desenho do varão, aumentar a área de contacto entre as formas abstractas e as pessoas, que seguem a sua viagem e muito provavelmente ignoraram o poste porque iam a olhar para o telemóvel.

André Romão

Setembro 2019

Dzi Bead (vista de exposição). João Marçal, . Quadrado Azul, Lisboa, 2019.  
João Marçal, Pé na parede, 2019. acrílico sobre parede. dimensões variáveis 
Dzi Bead (vista de exposição). João Marçal, . Quadrado Azul, Lisboa, 2019.  
João Marçal, Metrópole, 2019. ferro lacado. 301 x 35 x 35 cm 
Dzi Bead (vista de exposição). João Marçal, . Quadrado Azul, Lisboa, 2019.  
João Marçal, Gate no.4, 2019. esmalte e glitter sobre tela de algodão (shaped canvas). 230 x 210 cm 
Dzi Bead (vista de exposição). João Marçal, . Quadrado Azul, Lisboa, 2019.  
João Marçal, Mão na parede, (detalhe), 2019. acrílico sobre parede. dimensões variáveis 
João Marçal, Parede de Gelo, 2019. acrílico sobre linho. 290 x 202 cm 
João Marçal, Rocha Vermelha, 2019. acrílico sobre linho. 290 x 202 cm 
João Marçal, Mão na parede, 2019. acrílico sobre parede. dimensões variáveis 
João Marçal, Pé na parede, (detalhe), 2019. acrílico sobre parede. dimensões variáveis 
João Marçal, Parede de Gelo, (detalhe), 2019. acrílico sobre linho. 290 x 202 cm 
João Marçal, Rocha Vermelha, (detalhe), 2019. acrílico sobre linho. 290 x 202 cm