2026.02.05
Isabel Carvalho | Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende | Gondomar
 
2026.02.14
Lugar do Desenho | Fundação Júlio Resende | Rua Pintor Júlio Resende | Gondomar
Arder a Palavra

No dia 14 de fevereiro, sábado, às 17:00 horas, vai inaugurar a exposição Arder a Palavra, de Isabel Carvalho, no Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, em Valbom.
   

Em Arder a Palavra, Isabel Carvalho apresenta um conjunto de painéis cerâmicos resultantes de uma investigação que articula ciência e prática artística, recuperando saberes da tradição em que as cinzas vegetais eram usadas na formulação de esmaltes cerâmicos. As cinzas eleitas para o projeto foram sobretudo recolhidas em áreas atingidas pelos incêndios decorridos durante o verão de 2025 na região do Douro, uma das zonas que, nesse ano, registou maior impacto ambiental.
   

A pesquisa incidiu inicialmente sobre o comportamento do material vegetal em processos de vitrificação, analisando a artista de que modo espécies distintas — como o carvalho, o pinheiro e o eucalipto, presentes em proporções variáveis segundo a sua capacidade inflamável — produziam respostas cerâmicas específicas. Todavia, o trabalho deslocou-se progressivamente para outra direção, fundada na prática e na constatação de que, em contexto real, a separação rigorosa das espécies se revela quimérica fora de condições laboratoriais. A contaminação entre matérias — uma vez que o fogo indistintamente converte todo o “vivo” em cinzas —, assim como a subsequente impregnação do ar, dos solos e dos cursos de água, passou a integrar estruturalmente o próprio projeto. Deste modo, a investigação expandiu-se para além do contínuo avanço e aprimoramento técnico, assumindo uma dimensão simbólica indissociável daquilo a que assistimos como colapso ambiental.
   

Para Arder a Palavra, a oficina de cerâmica do Lugar do Desenho abriu-se como espaço de produção situada. As suas condições singulares reforçaram ainda mais a noção de contaminação enquanto conceito operativo, quer pela utilização pontual de esmaltes e fornos pertencentes a Júlio Resende, quer pela eleição do desenho — área central nesta instituição — como matriz do processo de transposição imagética dos percursos matéricos para o suporte do painel. Com efeito, no exposto, manifesta-se uma atenção sensível aos ciclos naturais e às transformações da paisagem, articulando prática artística e reflexão ecológica em torno dos ecossistemas do rio Douro, podendo os painéis ser tomados como dispositivos de inscrição e de memória.
   

Apoios: Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende; Associação Earthsea e DGArtes.